Igreja mundial · 13 de outubro de 2026
Histeria litúrgica: sacerdotes formados para servir ao altar ou para ocupá‑lo?
A cena se repete em paróquias e seminários. Um jovem sacerdote demora dez minutos para se revestir, corrige em voz baixa o monaguillo que se equivocou de lado, olha de relance a quem comunga na mão. Um bispo dedica sua carta pastoral mais extensa não aos pobres de sua diocese nem às paróquias sem cura, mas à extensão da casula e ao modo correto de purificar o cálice. Ninguém diria que fazem algo errado. Tudo está permitido, tudo está nos livros. E, no entanto, algo não fecha. Poderia chamar‑se de histeria litúrgica. Não como insulto, mas como hipótese: a de que, em certos sacerdotes e bispos, o amor pelo rito deixou de ser uma forma saudável de canalizar o afeto e o desejo, e se tornou uma encenação que pede, uma e outra vez, a atenção dos demais. Quando uma parte se torna o todo, a pista vem de um texto que circulou entre formadores argentinos. A Organização de Seminários da Argentina (OSAR) publicou "Acompanhar e confrontar a rigidez na formação sacerdotal", do padre Lucas E. Smiriglia, Smiriglia distingue duas rigidezes. Uma é adaptativa: o andaime provisório de quem chega a um mundo novo e se agarra ao conhecido para não se desbordar. Costuma ceder com o tempo. A outra é defensiva: não cede, torna‑se estrutura e protege uma imagem de si mesmo. Sua fórmula é precisa: o rígido "de uma parte faz o todo". Uma forma de comungar, uma rubrica, um modo de rezar se tornam a lupa pela qual se julga tudo o mais. Essa é a porta de entrada para a histeria litúrgica. Não se trata de quem ama o gregoriano, celebra com cuidado ou prefere o latim. Trata‑se de quem já não consegue celebrar sem transformar a celebração em um tribunal, nem pode ver outro celebrar diferente sem se sentir ameaçado. Subir ou agir A vida celibatária não suprime o desejo; reorienta‑o. A tradição espiritual e o psicanálise, por caminhos diferentes, coincidem em algo: a energia afetiva e sexual que não se vive em parceria pode ser deslocada para a oração, o serviço, o estudo, a beleza.
Isso é a sublimação. E a liturgia, com sua música, sua luz e sua gramática de gestos, é um dos seus canais mais nobres. O problema começa quando o canal transborda. A sublimação saudável é reconhecida por seus frutos: o sacerdote sai do altar mais disponível para os demais, não mais pendente de si. A histeria litúrgica produz o oposto. O rito já não leva a Deus nem ao povo; volta, uma e outra vez, sobre quem o celebra. Smiriglia descreve uma rigidez de tipo obsessivo: controle, escrúpulo normativo, necessidade de que tudo esteja em seu lugar para que a ansiedade não transborde. Mas alguns traços não se encaixam nesse molde. A encenação da própria piedade. A necessidade de ser reconhecido como quem realmente reverencia. A vítima‑ização do "me perseguem porque sou fiel". O corpo usado como linguagem: a joelheira no chão, o gesto medido, o olhar baixo. Tudo isso remete menos à lógica da norma que à lógica do desejo de ser visto. Na leitura psicanalítica, a histeria não é escândalo nem grito: é a pergunta do sujeito sobre seu lugar diante da mirada do Outro, uma pergunta que muitas vezes se responde com o corpo e com o teatro. E poucos cenários são tão adequados para esse teatro quanto um presbiterio: vestuário, coreografia, iluminação, um público que olha para um único ponto. Daí a pergunta desconfortável: pode uma parte desse rigorismo ser uma pulsão que não encontrou outro lugar e que encontrou no altar uma forma socialmente abençoada de se expor? Se fosse assim, a liturgia não estaria sublimando o desejo. Estaria encenando‑o. Os sintomas e o custo A histeria litúrgica não se reconhece pela estética, mas pela dinâmica. O documento da OSAR oferece um critério simples: a verdadeira fidelidade litúrgica produz caridade, humildade, flexibilidade e comunhão. Se uma prática, por piedosa que pareça, produz julgamento, superioridade moral e desqualificação dos irmãos, não vem do Espírito, seja qual for sua forma exterior.
A partir desse critério surgem alguns sinais: - O rito como identidade. O sacerdote parece precisar da casula, do gesto exato e do latim para saber quem é. Sem o cenário, ele se desmonta. - O outro como ameaça. Quem comunga na mão ou celebra com simplicidade não é um irmão com outra sensibilidade, mas um suspeito de "abuso". - A correção como perseguição. Toda observação se redefine como laxismo, falta de respeito ou ataque à fé. Smiriglia fala de uma espécie de gaslighting espiritual: quem corrige acaba duvidando de si mesmo. - A forma acima do povo. Horas para o cerimonial, minutos para a confissão, o enfermo ou o bairro. Nada disso é exclusivo de um setor. Também há uma histeria litúrgica "progressista": a do cura que precisa ser o animador, o que improvisa porque a celebração gira em torno de seu carisma. Muda o vestuário; a lógica de fundo, a do altar como palco próprio, é a mesma. O custo é pastoral. Comunidades que se dividem pelo modo de comungar. Fiéis que se sentem examinados em vez de recebidos. E, quando o fenômeno atinge bispos, dioceses inteiras onde a energia institucional se gasta em controlar rubricas enquanto perguntas muito mais urgentes permanecem sem resposta. A pergunta que se faz em voz baixa Outra pergunta circula nas sacristias e corredores da curia, quase sempre em tom de brincadeira: por que alguns dos sacerdotes mais obcecados com a liturgia têm modos afeminados ou uma afetividade que muitos descrevem como "feminina"? O encalhe, a pontuação, a atenção ao detalhe do vestuário alimentam a caricatura. Em maio de 2024, o próprio Francisco, em uma reunião fechada com bispos italianos, usou um termo despectivo sobre a presença homossexual nos seminários; o Vaticano pediu desculpas dias depois. A pergunta, então, existe. Vale a pena formulá‑la bem. Primeiro, separar três coisas que a brincadeira mistura. Um